O que é necessário para transformar um setor?

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31 de julho de 2025

(Texto de Paulo Gaspar, CEO da BRAINR, julho de 2025, Revista iAlimentar)

Durante meio século, a indústria alimentar portuguesa evoluiu com base no esforço, na disciplina e na dedicação. Foi esse trabalho, realizado diariamente por milhares de profissionais, que tornou o setor mais robusto, seguro e competitivo. No entanto, os tempos mudaram. E com eles surgiram novos requisitos: auditorias mais frequentes, margens cada vez mais reduzidas, dificuldades em manter as equipes e regulamentações em constante mudança.

Nesse contexto, a “transformação digital” passou a ocupar o centro das discussões. Falamos sobre dados, eficiência e inteligência artificial. Mas transformar um setor não significa simplesmente implementar painéis bonitos ou comprar tecnologia pronta para uso. Significa mudar a maneira como as pessoas trabalham. Todos os dias. Em todas as linhas de produção. Em todos os escritórios. Com cada pessoa.

E isso é difícil. Porque exige lidar com a realidade tal como ela é: imperfeita, urgente, cheia de exceções e decisões de última hora. É por isso que a BRAINR não começou com um produto. Começou com uma pergunta: “O que ainda é difícil de fazer em uma fábrica de alimentos?” Fomos ouvir. Fomos ver. E só então começamos a construir.

Da teoria à fábrica: onde a transformação realmente acontece

Hoje, mais de 25% da produção doméstica de carne já é processada pelo software da BRAINR. E estamos apenas começando.

Em Viseu, por exemplo, a Campoaves embala 60.000 peitos de frango por dia. Para manter a certificação IFS, é obrigatória uma rastreabilidade rigorosa. Mas esse rigor dependia de papel, trabalho manual e do risco de erros. A introdução do BRAINR tornou a rastreabilidade parte integrante da produção, com todos os dados em tempo real e conexão direta com as linhas de produção. O impacto foi imediato: menos erros, mais controle e auditorias aprovadas na primeira tentativa. Como nos disse Diogo Martins, gerente de qualidade: “O BRAINR ajudou diretamente a obter e agora a manter a certificação IFS.” Para Cátia Marques, da equipe de dados mestres, a diferença é clara: “Deixamos de depender da memória e do papel. O sistema agora se comunica diretamente com as linhas de produção.”

Mais ao sul, a AviSabor passou por uma transformação radical: de 40.000 para 190.000 frangos por dia e de 80 para 700 funcionários. O maior desafio? Não foi crescer. Foi manter o controle. Durante anos, encontrar um sistema que acompanhasse a complexidade da operação foi um problema constante. Com o BRAINR, esse problema deu lugar à visibilidade total. Hoje, eles sabem exatamente o que entra, o que sai e o que cada linha está produzindo, minuto a minuto. A certeza tornou-se parte da rotina. Como afirma Renato Prata, administrador: “Temos um grau muito alto de certeza no que fazemos”. E Juan Oliveira, da equipe de gestão, confirma: “A conta está certa, o peso está certo, o cliente recebe exatamente o que pediu”.

A transformação não consiste em criar aplicativos bonitos. Trata-se de sentar-se ao lado de alguém que opera uma linha de produção, descarrega um palete ou responde a uma auditoria. Trata-se de compreender onde os processos falham e criar soluções simples, práticas e robustas. É por isso que os gerentes passaram a visualizar receitas, perdas e desvios em tempo real, sem planilhas paralelas, sem ruídos. Em breve, eles terão assistentes inteligentes que geram relatórios automaticamente. No armazém, o estoque é contado por celular e a rastreabilidade por lote, validade e localização está integrada. No chão de fábrica, as anotações manuais desapareceram e os aplicativos móveis se tornaram mais ágeis. Um novo aplicativo de supervisão está a caminho, projetado para quem lidera os turnos. No planejamento, a rigidez dos sistemas antigos ficou para trás e um novo módulo inteligente, com lógica reversa e otimização de desempenho, já está em desenvolvimento. Em termos de qualidade, a rastreabilidade abrangente agora inclui um módulo de gestão de incidentes e recalls, com protocolos automáticos e resposta rápida para os cenários mais exigentes.

Três PMEs portuguesas poderão experimentar o BRAINR gratuitamente

E como sabemos que experimentar é melhor do que prometer, três PMEs poderão testar as soluções BRAINR gratuitamente através do programa Test4Food, financiado pelo PRR. Sem investimento inicial! É uma forma concreta de compreender o impacto da digitalização numa fábrica real, com equipes reais.

Mesmo na inteligência artificial, preferimos manter os pés no chão em vez de nos deixarmos levar por um entusiasmo cego. Voltamos a fazer a pergunta certa: “O que ainda é difícil de fazer no dia a dia?” As respostas estão a orientar o desenvolvimento de soluções de IA - análise automática de desvios, explicações em linguagem natural, recomendações práticas. Sem magia, sem promessas vazias. Apenas inteligência aplicada onde realmente faz a diferença.

Reconhecimentos internacionais Aparecer

Esse esforço já está começando a ser reconhecido. Fomos distinguidos pela StartUS Insights como uma das melhores soluções de planejamento e previsão de demanda do mundo. Recebemos o prêmio de produto mais inovador do ano na Lisbon Food Affair. E fomos destacados pela Manufacturing Tech Insights como a solução líder em Sistemas de Execução de Manufatura Baseados em Nuvem. Mas o verdadeiro reconhecimento vem de outro lugar: daqueles que, no final do dia, fecham a fábrica com menos erros, mais controle e mais orgulho do que fazem.

Então, o que é preciso para mudar um setor?

Talvez seja isso: ter a coragem de começar por baixo, e não por cima. Ouvir antes de prometer. Oferecer valor antes de pedir atenção. E acreditar que, se fizermos isso bem, o setor nos acompanhará.

Porque a indústria alimentar portuguesa merece o esforço.